sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O ESPÍRITO E A CARNE - Andrew Murray

Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?
Gálatas 3:3
Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne. Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu...
Filipenses 3:3-4
A carne é o nome pelo qual as Escrituras indicam a nossa natureza caída – alma e corpo. A alma na criação foi posta entre o espiritual ou divino e o sensível ou terreno, para S263 dar a cada um deles o que lhes é devido, e guia-los àquela perfeita união que resultaria no fato do homem alcançar seu destino – um corpo espiritual. Quando a alma cedeu à tentação do sensível, ela se afastou do governo do Espírito e pôs a si mesma sob o poder do corpo – ela se tornou carne. E agora a carne não está apenas ausente do Espírito, mas é hostil a ele. “A carne milita contra o Espírito” (Gálatas 5:17). 

Neste antagonismo da carne com o Espírito existem dois aspectos. Por um lado, a carne milita contra o Espírito ao cometer pecado e transgredir a lei de Deus. Por outro lado, sua hostilidade para com o Espírito é não menos manifestada em sua busca de servir a Deus e fazer Sua vontade. No ceder à carne, a alma voltou-se para si mesma em lugar do Deus a quem o Espírito a ligava; o egocentrismo prevaleceu sobre a vontade de Deus; o egocentrismo se tornou seu princípio governante. E agora, tão sutil e forte é este espírito do eu que a carne, não somente em pecar contra Deus, mas também quando a alma busca servir a Deus, ainda impõe o seu poder. Ela se recusa a permitir que apenas o Espírito lidere, e em seus esforços para ser “religiosa” ela ainda é o grande inimigo que obstrui e apaga o Espírito. É por causa desta falsidade da carne que muitas vezes ocorre o que Paulo fala aos Gálatas: “Tendo começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoando na carne?”. A menos que a rendição ao Espírito seja completa, e a espera Nele seja contínua, em dependência e humildade, o que começou no Espírito muito rapidamente se torna confiança na carne. 

E o notável é que o que a princípio poderia parecer um paradoxo, tão logo a carne busque servir a Deus ela se torna a força do pecado. Sabemos como os fariseus, com sua justiça-própria e religião carnal, caíram em orgulho e egocentralidade e se tornaram os servos do pecado. E Paulo indagou aos Gálatas a respeito de aperfeiçoarem na carne o que começou no Espírito, advertindo-os contra a justiça de obras, porque as obras da carne eram tão manifestas que eles estavam em perigo de devorarem-se uns aos outros. Satanás não possui um instrumento mais ardiloso para manter as almas em escravidão do que incitá-las a praticar a religião na carne. Ele sabe que o poder da carne jamais pode agradar a Deus ou vencer o pecado, e que no devido tempo a carne que tem ganhado supremacia sobre o Espírito no serviço a Deus afirmará e manterá esta mesma supremacia no serviço do pecado. É somente onde o Espírito tem a liderança e o governo na vida de adoração que haverá o poder para liderança e governo na vida de obediência prática. Se eu hei negar o eu em meus relacionamentos com os outros, vencer o egocentrismo, temperamento e falta de amor, eu devo primeiro aprender a negar o eu em meu relacionamento com Deus. Ali a alma, a sede do eu, deve aprender a curvar-se ao Espírito, onde Deus habita. 

O contraste entre a adoração no Espírito e a adoração na carne é lindamente expresso na descrição da circuncisão verdadeira feita por Paulo – a circuncisão do coração – cujo louvor não procede dos homens mas de Deus: “Aqueles que adoram a Deus no Espírito, gloriam-se em Cristo Jesus e não confiam na carne”. Pondo o gloriar-se em Cristo Jesus no centro do verso, como a essência da fé e vida cristã, ele chama a atenção, por um lado, para o grande perigo que o rodeia e, por outro lado, a salvaguarda pela qual o seu pleno desfrute é assegurado. Confiança na carne é aquilo que acima de tudo torna o gloriar-se em Cristo Jesus inoperante, e adoração no Espírito é unicamente aquilo que torna o gloriar-se em Cristo Jesus vida e verdade. Possa o Espírito revelar-nos o que significa gloriar-se em Cristo Jesus. 

Há um gloriar-se em Cristo Jesus acompanhado por confiança na carne que tanto a história quanto a experiência nos ensinam. Entre os Gálatas, os mestres a quem Paulo se opôs tão fortemente eram todos pregadores de Cristo e Sua cruz. Mas eles a pregavam não como homens ensinados pelo Espírito para conhecerem a infinita e toda-penetrante influência da cruz, mas como aqueles que tinham tido o Espírito de Deus no início, e que permitiram que sua própria sabedoria e pensamentos interpretassem o que a cruz significava, e assim a reconciliaram com uma religião que em larga medida era puramente legal e então carnal. A história das igrejas da Galácia é repetida hoje mesmo nas igrejas que confiam estarem livres do erro dos Gálatas. Note como muitas vezes é dito que a doutrina da justificação pela fé é o ensino principal da epístola, e a doutrina da habitação interior do Espírito e de nosso andar pelo Espírito é pouco mencionada. 

Cristo crucificado é a sabedoria de Deus. Confiança na carne, em conexão com o gloriar-se em Cristo, é confiança na própria sabedoria adquirida. As Escrituras são normalmente estudadas, pregadas e recebidas no poder da mente natural, com pouca ênfase na necessidade do ensino do Espírito. Elas são entendidas com a mesma confiança com a qual os homens conhecem qualquer verdade – por ensino humano e não divino – e na ausência daquela receptividade que espera em Deus para revelar Sua verdade. 

Cristo, pelo Espírito Santo, é não somente a sabedoria, mas o poder de Deus. Confiança na carne e gloriar-se em Cristo Jesus são vistos e sentidos em muito da obra da igreja cristã na qual o esforço e o planejamento humano tomam um lugar mais amplo do que a espera no poder que vem do alto. Nas maiores organizações eclesiásticas, nas igrejas separadamente, e na vida interior do espírito e oração, vemos quantos esforços infrutíferos e repetidos fracassos são decorrentes deste erro. Não há falta de reconhecimento de Cristo como nossa única esperança, e nem falta de dar-Lhe o louvor que Lhe é devido, todavia tanta confiança na carne torna tudo isto ineficaz. 

Deixe-me perguntar novamente se não há muitos de vocês que buscam uma vida de plena consagração e bênção, e que descobrem que o que temos mencionado aqui é o segredo de seu fracasso. Ajudar aqueles que têm descoberto que isto é verdade é um dos meus primeiros objetivos em escrever este livro. Quando em uma mensagem, conversa, ou oração particular, a plenitude de Jesus foi exposta a você com a possibilidade de uma vida santa, sua alma sentiu que tudo isto era tão maravilhoso e simples que nada poderia retê-lo. E talvez quando você aceitou o que foi visto ser seguro e acessível, entrou em uma alegria e poder que antes lhe eram desconhecidos. Mas isto não permaneceu. Algo estava basicamente errado. A sua busca pela causa do problema foi em vão. A razão que foi dada pode ter sido que sua rendição foi incompleta, ou que sua fé não era genuína. E ainda assim sua alma lhe assegurava de que estava pronta para desistir de tudo e confiar em Jesus para tudo. Sua alma quase se desesperava de uma perfeição impossível – se perfeita consagração e perfeita fé fossem a condição da bênção. E a promessa tinha sido que seria tudo tão simples – a vida perfeita para o pobre e o fraco. 

Ouça o ensinamento da Palavra de Deus hoje: foi a confiança na carne que confiscou o seu gloriar-se em Cristo Jesus. Foi o eu fazendo o que somente o Espírito pode fazer; foi a alma tomando a liderança na expectativa que o Espírito apoiaria os seus esforços, ao invés de confiar no Espírito Santo para fazer tudo e então esperar Nele. Você seguiu Jesus sem negar o eu. Olhe novamente para o nosso texto: Paulo nos aponta a única salvaguarda conta este perigo: “Nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito e não confiamos na carne”. Aqui estão os dois elementos da adoração espiritual: o Espírito exalta Jesus e humilha a carne. Se nós desejamos verdadeiramente nos gloriar em Jesus e tê- Lo glorificado em nós; se queremos conhecer a glória de Jesus em nossa experiência pessoal, livres da ineficácia que marca os esforços da carne, devemos aprender o que é a adoração a Deus no Espírito. 

Eu apenas reitero que este é o propósito deste livro, manifestar como verdade de Deus a partir de Sua bendita Palavra: glorie-se em Cristo Jesus pelo Seu Espírito. Glorie-se Nele como o glorificado que batiza com o Espírito Santo. Em simplicidade e descanso, creia que Ele lhe deu o Seu próprio Espírito para viver em você. Medite nisto, creia em Sua Palavra concernente a isto, até que sua alma se curve em temor reverente perante Deus na verdade gloriosa: o Espírito Santo de Deus habita em você. Renda-se à Sua liderança, sobre a qual temos aprendido não ser somente nos pensamentos ou na mente, mas também na vida e na disposição. 

Renda-se a Deus para ser guiado pelo Espírito Santo em toda a sua conduta. Ele é prometido para todos aqueles que amam a Jesus e O obedecem. Lembre-se qual foi o objetivo principal de sua vinda: restaurar o partinte Senhor Jesus aos Seus discípulos. “Não vos deixarei órfãos”, disse Jesus; “voltarei para vós outros”. Você não pode se gloriar em um Jesus distante do qual está separado. Quando tenta fazê-lo, isto requer um grande esforço – você precisa da ajuda da carne para isso. Você só pode se gloriar em um Salvador que é presente, a quem o Espírito Santo revela em você. Quando Ele o faz, a carne é rebaixada; os feitos da carne são mortificados. Toda a sua prática de fé deve ser: eu não tenho confiança na carne. Glorio-me em Cristo Jesus. Adoro a Deus no Espírito. 

Amado crente, tendo começado no Espírito, você deve continuar no Espírito. Cuide-se de tentar aperfeiçoar a obra do Espírito na carne. Deixe que a “não confiança na carne” seja o seu grito de batalha; permita que uma profunda desconfiança da carne e temor de entristecer o Espírito por andar na carne guarde-o humildemente diante de Deus. Ore a Deus pelo Espírito de revelação a fim de que você possa ver Jesus como seu tudo e ver como, pelo Espírito Santo, a vida divina pode tomar o lugar de sua vida, e Jesus ser entronizado como o protetor e guia de sua alma.

Bendito Deus e Pai, agradecemos-Te pela maravilhosa provisão que Tu tens feito para que Teus filhos se aproximem de Ti, gloriando-se em Cristo Jesus, e adorem-Te pelo Espírito. Conceda-nos, pedimos, que assim possa ser nossa vida e serviço cristão. Pedimos-Te que nos mostres claramente quão grande barreira para tal vida é a confiança na carne. Abra nossos olhos para este laço de Satanás. Que possamos todos nós ver quão secreta e sutil é a tentação e quão facilmente somos conduzidos a aperfeiçoar na carne o que começou no Espírito. Que possamos aprender a confiar em Ti para operar em nós pelo Teu Espírito Santo tanto o que ser quanto o fazer aquilo que é o Teu bom prazer. Ensina-nos também, oramos, a conhecer como a carne pode ser vencida e o seu poder quebrado. Através da morte de Teu amado Filho nossa velha natureza foi crucificada. Que possamos considerar tudo como perda para sermos conformados à Tua morte, e conhecer o poder de uma vida guiada pelo Teu Espírito Santo. Amém.

Sumário
1. Cristo é a sabedoria e o poder de Deus. A raiz de toda confiança em nossa própria força e sabedoria é a ideia de que nós sabemos como servir a Deus porque temos a Sua Palavra e isto é suficiente. Esta sabedoria do homem acolhendo a Palavra de Deus é o maior perigo da igreja porque é uma forma oculta e sutil pela qual somos conduzidos a aperfeiçoar na carne o que começou no Espírito.

2. Nossa única salvaguarda aqui é o Espírito Santo: uma disposição de ser ensinados por Ele, um temor de andar segundo a carne nas menores coisas que sejam, uma rendição amorosa em tudo para a obediência de Cristo. Carecemos de 271 uma fé viva no Espírito para possuir nossa vida e viver através de nós.

3. Percebamos que existem dois princípios motivadores de vida. Na maioria dos cristãos há uma vida mista, dando lugar a um deles e então também ao outro. Mas a vontade de Deus é que nós não andemos segundo a carne nem um só momento, mas segundo o Espírito. O Espírito Santo pode ajudar-nos a mortificar a vida da carne e tornar-Se nossa nova vida, revelando Cristo em nós. Então podemos dizer, “não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).


4. A igreja precisa aprender desta epístola que a justificação pela fé é somente um meio para um fim: a entrada para uma vida de andar pelo Espírito de Deus. Devemos retornar à pregação de João Batista: Cristo tira o pecado do mundo, Cristo batiza com o Espírito Santo.
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