Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis
agora pela carne?
Gálatas 3:3
Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos
gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne. Ainda que também podia
confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais
eu...
Filipenses 3:3-4
A carne é o nome pelo qual as
Escrituras indicam a nossa natureza caída – alma e corpo. A alma na criação foi
posta entre o espiritual ou divino e o sensível ou terreno, para S263 dar a
cada um deles o que lhes é devido, e guia-los àquela perfeita união que
resultaria no fato do homem alcançar seu destino – um corpo espiritual. Quando
a alma cedeu à tentação do sensível, ela se afastou do governo do Espírito e
pôs a si mesma sob o poder do corpo – ela se tornou carne. E agora a carne não
está apenas ausente do Espírito, mas é hostil a ele. “A carne milita contra o
Espírito” (Gálatas 5:17).
Neste antagonismo da carne com o Espírito existem
dois aspectos. Por um lado, a carne milita contra o Espírito ao cometer pecado
e transgredir a lei de Deus. Por outro lado, sua hostilidade para com o
Espírito é não menos manifestada em sua busca de servir a Deus e fazer Sua
vontade. No ceder à carne, a alma voltou-se para si mesma em lugar do Deus a
quem o Espírito a ligava; o egocentrismo prevaleceu sobre a vontade de Deus; o
egocentrismo se tornou seu princípio governante. E agora, tão sutil e forte é
este espírito do eu que a carne, não somente em pecar contra Deus, mas também
quando a alma busca servir a Deus, ainda impõe o seu poder. Ela se recusa a
permitir que apenas o Espírito lidere, e em seus esforços para ser “religiosa”
ela ainda é o grande inimigo que obstrui e apaga o Espírito. É por causa desta
falsidade da carne que muitas vezes ocorre o que Paulo fala aos Gálatas: “Tendo
começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoando na carne?”. A menos que
a rendição ao Espírito seja completa, e a espera Nele seja contínua, em
dependência e humildade, o que começou no Espírito muito rapidamente se torna
confiança na carne.
E o notável é que o que a princípio poderia parecer um
paradoxo, tão logo a carne busque servir a Deus ela se torna a força do pecado.
Sabemos como os fariseus, com sua justiça-própria e religião carnal, caíram em
orgulho e egocentralidade e se tornaram os servos do pecado. E Paulo indagou
aos Gálatas a respeito de aperfeiçoarem na carne o que começou no Espírito,
advertindo-os contra a justiça de obras, porque as obras da carne eram tão manifestas
que eles estavam em perigo de devorarem-se uns aos outros. Satanás não possui
um instrumento mais ardiloso para manter as almas em escravidão do que
incitá-las a praticar a religião na carne. Ele sabe que o poder da carne jamais
pode agradar a Deus ou vencer o pecado, e que no devido tempo a carne que tem
ganhado supremacia sobre o Espírito no serviço a Deus afirmará e manterá esta
mesma supremacia no serviço do pecado. É somente onde o Espírito tem a
liderança e o governo na vida de adoração que haverá o poder para liderança e
governo na vida de obediência prática. Se eu hei negar o eu em meus
relacionamentos com os outros, vencer o egocentrismo, temperamento e falta de
amor, eu devo primeiro aprender a negar o eu em meu relacionamento com Deus.
Ali a alma, a sede do eu, deve aprender a curvar-se ao Espírito, onde Deus
habita.
O contraste entre a adoração no Espírito e a adoração na carne é
lindamente expresso na descrição da circuncisão verdadeira feita por Paulo – a
circuncisão do coração – cujo louvor não procede dos homens mas de Deus:
“Aqueles que adoram a Deus no Espírito, gloriam-se em Cristo Jesus e não
confiam na carne”. Pondo o gloriar-se em Cristo Jesus no centro do verso, como
a essência da fé e vida cristã, ele chama a atenção, por um lado, para o grande
perigo que o rodeia e, por outro lado, a salvaguarda pela qual o seu pleno
desfrute é assegurado. Confiança na carne é aquilo que acima de tudo torna o
gloriar-se em Cristo Jesus inoperante, e adoração no Espírito é unicamente
aquilo que torna o gloriar-se em Cristo Jesus vida e verdade. Possa o Espírito
revelar-nos o que significa gloriar-se em Cristo Jesus.
Há um gloriar-se em
Cristo Jesus acompanhado por confiança na carne que tanto a história quanto a
experiência nos ensinam. Entre os Gálatas, os mestres a quem Paulo se opôs tão
fortemente eram todos pregadores de Cristo e Sua cruz. Mas eles a pregavam não
como homens ensinados pelo Espírito para conhecerem a infinita e
toda-penetrante influência da cruz, mas como aqueles que tinham tido o Espírito
de Deus no início, e que permitiram que sua própria sabedoria e pensamentos
interpretassem o que a cruz significava, e assim a reconciliaram com uma
religião que em larga medida era puramente legal e então carnal. A história das
igrejas da Galácia é repetida hoje mesmo nas igrejas que confiam estarem livres
do erro dos Gálatas. Note como muitas vezes é dito que a doutrina da
justificação pela fé é o ensino principal da epístola, e a doutrina da
habitação interior do Espírito e de nosso andar pelo Espírito é pouco
mencionada.
Cristo crucificado é a sabedoria de Deus. Confiança na carne, em
conexão com o gloriar-se em Cristo, é confiança na própria sabedoria adquirida.
As Escrituras são normalmente estudadas, pregadas e recebidas no poder da mente
natural, com pouca ênfase na necessidade do ensino do Espírito. Elas são
entendidas com a mesma confiança com a qual os homens conhecem qualquer verdade
– por ensino humano e não divino – e na ausência daquela receptividade que
espera em Deus para revelar Sua verdade.
Cristo, pelo Espírito Santo, é não
somente a sabedoria, mas o poder de Deus. Confiança na carne e gloriar-se em
Cristo Jesus são vistos e sentidos em muito da obra da igreja cristã na qual o
esforço e o planejamento humano tomam um lugar mais amplo do que a espera no
poder que vem do alto. Nas maiores organizações eclesiásticas, nas igrejas
separadamente, e na vida interior do espírito e oração, vemos quantos esforços
infrutíferos e repetidos fracassos são decorrentes deste erro. Não há falta de
reconhecimento de Cristo como nossa única esperança, e nem falta de dar-Lhe o
louvor que Lhe é devido, todavia tanta confiança na carne torna tudo isto
ineficaz.
Deixe-me perguntar novamente se não há muitos de vocês que buscam
uma vida de plena consagração e bênção, e que descobrem que o que temos
mencionado aqui é o segredo de seu fracasso. Ajudar aqueles que têm descoberto
que isto é verdade é um dos meus primeiros objetivos em escrever este livro.
Quando em uma mensagem, conversa, ou oração particular, a plenitude de Jesus
foi exposta a você com a possibilidade de uma vida santa, sua alma sentiu que
tudo isto era tão maravilhoso e simples que nada poderia retê-lo. E talvez
quando você aceitou o que foi visto ser seguro e acessível, entrou em uma alegria
e poder que antes lhe eram desconhecidos. Mas isto não permaneceu. Algo estava
basicamente errado. A sua busca pela causa do problema foi em vão. A razão que
foi dada pode ter sido que sua rendição foi incompleta, ou que sua fé não era
genuína. E ainda assim sua alma lhe assegurava de que estava pronta para
desistir de tudo e confiar em Jesus para tudo. Sua alma quase se desesperava de
uma perfeição impossível – se perfeita consagração e perfeita fé fossem a
condição da bênção. E a promessa tinha sido que seria tudo tão simples – a vida
perfeita para o pobre e o fraco.
Ouça o ensinamento da Palavra de Deus hoje:
foi a confiança na carne que confiscou o seu gloriar-se em Cristo Jesus. Foi o
eu fazendo o que somente o Espírito pode fazer; foi a alma tomando a liderança
na expectativa que o Espírito apoiaria os seus esforços, ao invés de confiar no
Espírito Santo para fazer tudo e então esperar Nele. Você seguiu Jesus sem
negar o eu. Olhe novamente para o nosso texto: Paulo nos aponta a única
salvaguarda conta este perigo: “Nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos
a Deus no Espírito e não confiamos na carne”. Aqui estão os dois elementos da
adoração espiritual: o Espírito exalta Jesus e humilha a carne. Se nós
desejamos verdadeiramente nos gloriar em Jesus e tê- Lo glorificado em nós; se
queremos conhecer a glória de Jesus em nossa experiência pessoal, livres da
ineficácia que marca os esforços da carne, devemos aprender o que é a adoração
a Deus no Espírito.
Eu apenas reitero que este é o propósito deste livro,
manifestar como verdade de Deus a partir de Sua bendita Palavra: glorie-se em
Cristo Jesus pelo Seu Espírito. Glorie-se Nele como o glorificado que batiza
com o Espírito Santo. Em simplicidade e descanso, creia que Ele lhe deu o Seu
próprio Espírito para viver em você. Medite nisto, creia em Sua Palavra
concernente a isto, até que sua alma se curve em temor reverente perante Deus
na verdade gloriosa: o Espírito Santo de Deus habita em você. Renda-se à Sua
liderança, sobre a qual temos aprendido não ser somente nos pensamentos ou na
mente, mas também na vida e na disposição.
Renda-se a Deus para ser guiado pelo
Espírito Santo em toda a sua conduta. Ele é prometido para todos aqueles que
amam a Jesus e O obedecem. Lembre-se qual foi o objetivo principal de sua vinda: restaurar o partinte Senhor Jesus aos Seus discípulos. “Não vos deixarei
órfãos”, disse Jesus; “voltarei para vós outros”. Você não pode se gloriar em
um Jesus distante do qual está separado. Quando tenta fazê-lo, isto requer um grande
esforço – você precisa da ajuda da carne para isso. Você só pode se gloriar em
um Salvador que é presente, a quem o Espírito Santo revela em você. Quando Ele
o faz, a carne é rebaixada; os feitos da carne são mortificados. Toda a sua
prática de fé deve ser: eu não tenho confiança na carne. Glorio-me em Cristo
Jesus. Adoro a Deus no Espírito.
Amado crente, tendo começado no Espírito, você
deve continuar no Espírito. Cuide-se de tentar aperfeiçoar a obra do Espírito
na carne. Deixe que a “não confiança na carne” seja o seu grito de batalha;
permita que uma profunda desconfiança da carne e temor de entristecer o
Espírito por andar na carne guarde-o humildemente diante de Deus. Ore a Deus
pelo Espírito de revelação a fim de que você possa ver Jesus como seu tudo e
ver como, pelo Espírito Santo, a vida divina pode tomar o lugar de sua vida, e
Jesus ser entronizado como o protetor e guia de sua alma.
Bendito Deus e Pai, agradecemos-Te pela maravilhosa provisão que Tu
tens feito para que Teus filhos se aproximem de Ti, gloriando-se em Cristo
Jesus, e adorem-Te pelo Espírito. Conceda-nos, pedimos, que assim possa ser
nossa vida e serviço cristão. Pedimos-Te que nos mostres claramente quão grande
barreira para tal vida é a confiança na carne. Abra nossos olhos para este laço
de Satanás. Que possamos todos nós ver quão secreta e sutil é a tentação e quão
facilmente somos conduzidos a aperfeiçoar na carne o que começou no Espírito.
Que possamos aprender a confiar em Ti para operar em nós pelo Teu Espírito
Santo tanto o que ser quanto o fazer aquilo que é o Teu bom prazer. Ensina-nos
também, oramos, a conhecer como a carne pode ser vencida e o seu poder
quebrado. Através da morte de Teu amado Filho nossa velha natureza foi
crucificada. Que possamos considerar tudo como perda para sermos conformados à
Tua morte, e conhecer o poder de uma vida guiada pelo Teu Espírito Santo. Amém.
Sumário
1. Cristo é a sabedoria e o poder
de Deus. A raiz de toda confiança em nossa própria força e sabedoria é a ideia
de que nós sabemos como servir a Deus porque temos a Sua Palavra e isto é
suficiente. Esta sabedoria do homem acolhendo a Palavra de Deus é o maior
perigo da igreja porque é uma forma oculta e sutil pela qual somos conduzidos a
aperfeiçoar na carne o que começou no Espírito.
2. Nossa única salvaguarda aqui é
o Espírito Santo: uma disposição de ser ensinados por Ele, um temor de andar
segundo a carne nas menores coisas que sejam, uma rendição amorosa em tudo para
a obediência de Cristo. Carecemos de 271 uma fé viva no Espírito para possuir
nossa vida e viver através de nós.
3. Percebamos que existem dois
princípios motivadores de vida. Na maioria dos cristãos há uma vida mista,
dando lugar a um deles e então também ao outro. Mas a vontade de Deus é que nós
não andemos segundo a carne nem um só momento, mas segundo o Espírito. O
Espírito Santo pode ajudar-nos a mortificar a vida da carne e tornar-Se nossa
nova vida, revelando Cristo em nós. Então podemos dizer, “não sou mais eu quem
vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).
4. A igreja precisa aprender
desta epístola que a justificação pela fé é somente um meio para um fim: a
entrada para uma vida de andar pelo Espírito de Deus. Devemos retornar à
pregação de João Batista: Cristo tira o pecado do mundo, Cristo batiza com o
Espírito Santo.
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