sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A Existência de Deus - Parte III

A LIMITAÇÃO HUMANA

A existência de Deus é conhecida pelo homem quando, apesar das suas limitações, fraquezas e mortalidade, consegue conceber a ideia de um ser ilimitado, perfeito e eterno. Partindo desta ideia apresentaremos três argumentos acerca da existência de Deus: 1 – O Argumento Ontológico, de Anselmo de Cantebury, 2 – Os Cinco Argumentos em Prol da Existência de Deus, de Tomás de Aquino, e 3 – Deus Como Expressão Máxima das Virtudes Humanas.

1.3.1. O ARGUMENTO ONTOLÓGICO



Um dos argumentos mais sólidos, no campo filosófico, para sustentar a existência de Deus, é o Argumento Ontológico (Ontologia: ramo da filosofia que estuda a existência e a constituição do ser), defendido por Anselmo de Cantebury, no século XI.

Na tentativa de ajudar o homem a se aproximar de Deus, Anselmo criou um argumento em favor da existência de Deus através da razão, onde nenhum engano fosse capaz de distorcer essa existência. O argumento de Anselmo é este:

“Por definição, Deus é o mais perfeito dos seres, de tal modo que é impossível conceber outro ser mais perfeito; porém, se supuséssemos que Deus existe apenas como uma proposta intelectual, e não na realidade, então seria claro, por Deus existir verdadeiramente somente no intelecto (mente humana), que seria possível imaginarmos um ser mais perfeito do que o nosso ser perfeito (Deus), a saber, um que existisse na realidade e não apenas no intelecto. Portanto, Deus, o ser perfeito – deve realmente existir”.

Deste modo, o homem pode concluir pela existência de um Ser Supremo (Deus), pois seu intelecto e sua experiência natural lhe mostram que ele – homem – é limitado, o que o leva a ter certeza que acima dele deve haver um Ser Perfeito, ilimitado e completo, que quando o homem deixa de existir, continua existindo e sustentando todo o sistema do universo, como o Apóstolo Paulo afirma em Atos 17:28:

“Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos (…)”

E ainda é assegurado em Hebreus 1:3, que o próprio Deus sustenta todas as coisas pela Palavra do Seu poder:

“O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder (…)”

1.3.2. OS CINCO ARGUMENTOS EM PROL DA EXISTÊNCIA DE DEUS

Tomás de Aquino foi um dos maiores filósofos cristãos, que defendeu a existência de Deus no século XIII, utilizando-se da metafísica (que é o ramo da filosofia que estuda a essência dos seres e a transcendência, ou seja, aquilo que ultrapassa os aspectos físicos e busca a causa deles), apoiando sua doutrina através de cinco argumentos de razão pura.

Os cinco argumentos são:

1 – O Movimento: Todas as coisas no universo estão em movimento, ou seja, em contínuo desenvolvimento. Contudo para que saiam do estado de inércia (ausência de movimento), para o estado de ação, deve haver uma força capaz de proporcionar a ação. Por exemplo: Uma bola de futebol se movendo. O pé do jogador a colocou em movimento. O jogador foi gerado de sua mãe. E sua mãe nasceu de sua avó, e esta de sua bisavó, e assim regressivamente.

Se fôssemos voltando até encontrar o primeiro movimento, que retirou a bola da inércia e a colocou em movimento (ação), nunca o encontraríamos, pois sempre existiria um movimento anterior, até o ponto em que fosse impossível chegar ao primeiro movimento (ou alteração), por essa razão, precisamos apontar um primeiro movimentador (alterador), que não é movido por ninguém, mas que movimenta todas as coisas, e todos compreendem que este é Deus.

2 – As Causas Eficientes: Nesse mundo palpável, todas as coisas existentes possuem uma causa anterior de existir, que deve ser maior do que a própria causa. Por exemplo: Um carro viajando por uma estrada. É impossível imaginar um carro existindo sem que haja uma fábrica que o produziu (a fábrica é a causa eficiente, que produziu o carro) e da mesma maneira é impossível imaginar uma estrada que não tivesse sido construída por alguma empresa construtora (a empresa construtora é causa eficiente, que construiu o carro).

Não há nenhum caso conhecido no mundo em que uma coisa qualquer é a causa eficiente de si mesma, pois nesse caso, seria anterior a si mesma, o que é simplesmente impossível. Como no nosso exemplo é impossível imaginar que o carro e a estrada existam por si mesmos, isto é, sem uma causa eficiente.

Assim, se retrocedermos, causa por causa, até o infinito, teremos que admitir uma primeira causa eficiente (que produz de si mesma), à qual todos damos o nome de Deus.

3 – A Possibilidade e a Necessidade: Na observação da natureza, podemos encontrar coisas que são possíveis de ser e não ser, de modo que, dependendo da circunstância algo é possível, e em outras situações não é possível. Por exemplo: É possível a um homem, em condições climáticas normais, colocar fogo em um arbusto, mas caso esteja chovendo muito, isso não é mais possível. Entretanto, se parar de chover, torna-se possível ao homem atear fogo no determinado arbusto. Então, podemos dizer em nosso exemplo, que enquanto estiver chovendo, não existe fogo no arbusto (não ser), ao passo que, terminada a chuva e colocado o fogo pelo homem, o arbusto se incendeia (ser).

Dessa maneira, todas as coisas dependem da possibilidade de ser, pois caso não haja a possibilidade para determinada coisa de ser, ela não será, isto é, não existirá.

Podemos falar agora da necessidade. Para que alguma coisa seja possível de ser, deve haver algo capaz de fazer possível que determinada coisa seja. Esse algo capaz de fazer alguma coisa ser, então, é algo necessário, sem o qual não seria possível para a coisa ser.

No exemplo acima, a não existência de chuva forte, faz o fogo no arbusto ser. Se fôssemos retroceder a todas as coisas necessárias para que o arbusto pegasse fogo, voltaríamos até o infinito, pois o ato de colocar fogo no arbusto faz parte de uma cadeia sequencial de atos (necessidade) até que seja possível colocar fogo no arbusto (arbusto seco – arbusto – nascimento do arbusto – semente do arbusto – terra para plantar o arbusto, e assim até o infinito).

Assim, não podemos deixar de admitir a existência de algo que tem em si mesmo sua própria possibilidade e necessidade, não as tendo recebido de nenhum outro, mas antes, esse algo é a causa necessária e da possibilidade de tudo mais ser. A esse algo, todos os homens chamam de Deus.

4 – A Gradação: Em todos os seres, podemos encontrar um determinado sistema de gradação entre eles, isto é, alguns que são mais e outros que são menos bons, amáveis, sinceros, nobres. Porém essas gradações (de mais ou menos) são atribuídas a diversas coisas na medida em que elas se parecem com algo que é o máximo. Por exemplo: Dizemos que alguém é mais nobre, mais amoroso, mais misericordioso, em relação àquele que é nobre, amoroso e misericordioso.

O máximo, dentro de qualquer gênero, é a causa de tudo quanto existe nesse gênero. Assim, deve haver algo que, para todos os seres, é a causa do ser de todos eles, de sua bondade e de todos os seus outros atributos, e a esse algo graduado no nível máximo, chamamos de Deus.

5 – O Governo e a Finalidade: A quinta maneira de se provar a existência de Deus se baseia no governo e na finalidade (teleologia) inteligente do mundo, isto é, as coisas existentes, não estão no mundo aleatoriamente dispersas, mas possuem uma utilidade, e ainda além dessa utilidade, possuem uma finalidade. Por exemplo: A erva cresce, se torna alimento da ovelha, e esta se transforma em alimento e vestimenta para o ser humano.

Entretanto esse argumento vai muito além de mostrar uma cadeia simples de governo e finalidade (erva – ovelha – homem): Ele revela a inter-relação perfeita de todas as coisas no mundo. Assim, todas as coisas naturais foram ordenadas a se comportar de uma determinada forma (governo), para atingirem um objetivo também previamente estabelecido (finalidade).

Ora, é impossível para coisas irracionais se dirigirem a uma finalidade, a menos que sejam orientadas por algum ser dotado de conhecimento e inteligência, tal como a flecha não pode atingir um alvo se não for orientada pelo lanço de um arqueiro. Portanto, existe algum ser por meio do qual todas as coisas naturais são dirigidas (governadas) às suas respectivas finalidades (pré-determinadas por Ele). E a esse ser chamamos de Deus.

1.3.3. DEUS COMO EXPRESSÃO MÁXIMA DAS VIRTUDES DO HOMEM

O homem é o ápice de toda criação que há no mundo. Não há nenhuma coisa ou ser que se compare a ele em domínio, finalidade, vontade ou potencial.

Existem coisas que são maiores ou mais poderosas que ele, mas o homem tem a capacidade de dominar a todas: desde o corte de árvores gigantescas, até o redirecionamento de rios inteiros ao seu querer. Muitos seres são mais ágeis e resistentes que o homem, contudo, tanto os grandes felinos, como o tigre e o leão, quanto as imensas baleias são facilmente dominadas pela capacidade do homem. Todas essas condições foram presenteadas ao homem, por Deus, conforme Gênesis 1:28:

“E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que se move sobre a terra.”

Entretanto, o ser humano possui virtudes que vão muito além daquelas que são aplicadas às aptidões físicas ou intelectuais: Ele possui virtudes de caráter, que são inconciliáveis com qualquer instinto e lógica natural, ou seja, o indivíduo humano externa determinadas atitudes que contrariam o instinto de autopreservação ou de prazer próprio.

Por exemplo, o homem é capaz de atos de extrema bravura e nobreza, ao entrar em locais em chamas para salvar a vida de seus semelhantes, e isso sem receber nenhuma retribuição, ou ainda, é capaz de renunciar honras a sua própria pessoa para reconhecer que outros fizeram um melhor trabalho que ele, e por isso são mais dignos de receberem as honras que lhe são prestadas.

Muitos outros exemplos poderiam ser apontados, mas esses já bastam para concluirmos que o homem possui, como nenhuma outra coisa ou ser, virtudes morais, que o determinam a definidas atitudes que não são nem instintivas, tampouco apenas intelectuais.

Pensando sobre a possibilidade de se provar a existência de Deus, um grande filósofo moderno (séc. XVIII), chamado Immanuel Kant, através de várias obras no campo da filosofia – ora assumindo a existência de Deus (História Geral da Natureza), ora a criticando (Crítica da Razão Pura) – construiu um sistema que o levou a concluir, em sua obra O Único Argumento Possível para a Existência de Deus, que é possível se provar a existência de Deus através da finalidade moral que o homem possui. Kant entende que o homem é um ser dotado de uma razão que é prática, isto é, que é capaz de agir intencionalmente. Isso significa que o homem possui a capacidade de dar uma finalidade às suas atitudes, independentemente de seu instinto (algo semelhante ao livre-arbítrio, ainda que apenas em parte).

Logo, se pela finalidade natural (ver Item 1.3.2 Os Cinco Argumentos em Prol da Existência de Deus, de Tomás de Aquino) já era provável a conclusão de uma causa inteligente do mundo (Deus), muito mais acertado é deduzir a existência de Deus, tomando-se por base a finalidade

moral do ser humano, ou seja, se o homem é moral, Deus é a causa máxima da moralidade do homem, e além disso, é um legislador moral do mundo.

E isso se dá em virtude do homem possuir, em si, da mesma substância de Deus (evidentemente apenas em parte, e outorgada a ele, mas não como dele próprio), pois Dele foi derivado, de acordo com Gênesis 1:26-27 e 2:7:

“E disse Deus: Façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança (…). E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (…). E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.”

Assim, todas as virtudes do homem (bondade, amor, nobreza, simplicidade, generosidade, etc) devem possuir uma fonte que é a geradora de todas elas, ou seja, que é o grau de virtude máxima, de forma que ao valor moral mais sublime dá-se o nome de Deus.

Defesa do Evangelho
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João 15:1

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